terça-feira, 27 de outubro de 2015

Pará é o 4º no País em morte por raios com 128 vítimas



Nos últimos 15 anos, o Estado do Pará registrou 128 mortes por raios, o que representa mais de oito casos por ano. Esse é o quarto maior registro dentre todas as unidades federativas, segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e que fazem parte do livro “Brasil: Que raio de história”, que está sendo lançado na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, em andamento até hoje, em Brasília. O registro só é inferior aos números de São Paulo, onde 288 pessoas morreram, Minas Gerais (132) e Rio Grande do Sul (130).

Segundo o recorte dos dados do Pará, passados com exclusividade a O LIBERAL, Belém lidera o número de óbitos por descarga elétrica no Estado, com sete casos entre 2000 e 2015. Só fica atrás na região Norte, de alguns dos municípios campeões de notificações no Brasil, como Manaus (AM), com 22 mortes; Porto velho (RO), com nove; e São Gabriel da Cachoeira (AM), com oito.

De acordo com a publicação, duas dessas mortes por raios dentro do território paraense ocorreram ainda neste ano de 2015. O primeiro caso foi em Soure, na região do Marajó, e o segundo em Ananindeua, no último mês de maio. Essa fatalidade, inclusive, é relatada no estudo.

“Um homem morreu após ser atingido por uma descarga elétrica dentro da igreja Poder e Glória, no conjunto 40 Horas, em Ananindeua, no dia 8 de maio de 2015. Identificado como Robson Lameira Marcos dos Santos, de 23 anos, ele chegou a ser levado para a Unidade de Pronto Atendimento 24h (UPA) do Icuí, mas não resistiu e morreu”, descreve a pesquisa.

“De acordo com informações do cunhado da vítima, Márcio Vinicius, no momento da tragédia chovia muito e Robson estava segurando um microfone. Ele conta que um raio atingiu a igreja, o que ocasionou uma descarga elétrica. A vítima morreu eletrocutada”, completa o relato.

A citação da ocorrência em Ananindeua é usada na publicação para apontar uma grande preocupação identificada pelos pesquisadores do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Inpe: o número de mortes por raios na Região Norte está aumentando assustadoramente e a tendência é que a incidência do fenômeno continue crescendo na região. O grande vilão por trás do aumento de descargas elétricas e o consequente número de vítimas fatais, segundo o Inpe, é o aquecimento global.

O estudo comparou o levantamento de mortes por raios feito entre 2000 e 2009 com os registros no período de 2000 a 2014 e identificou aumento de casos apenas nos Estados nortistas. De 2000 a 2014, 1.789 pessoas morreram atingidas por raios em todo o País. O número médio de mortes por ano caiu de 132 para 111 , mas, apesar da redução nacional, as mortes na Região Norte aumentaram e passaram de 18% para 21% dos casos.

O Sudeste continua com o maior número de vítimas, por ter maior população, mas agora com 26% dos casos, contra 29% antes. Conforme o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior, a falta de acesso à informação pode ser a causa para o aumento de mortes no Norte, por ser uma região com cidades pequenas e muito distantes dos centros urbanos.

Segundo Osmar, na Região Norte existe também a tendência de aumento da população, assim como o aumento da incidência do número de raios, porque é a região que mais está esquentando, devido ao aquecimento global (cerca de 7 ºC até o fim do século).

Osmar explica ainda que o padrão de ventos e a alta temperatura da região influi diretamente na formação de tempestades. Para exemplificar, o Pará foi o terceiro Estado da região Norte com maior incidência de raios no primeiro semestre deste ano: 587.741, totalizando 25% do total da região. Em 2015, caíram 10.257 raios a mais no Estado que no ano passado (577.484).

Em setembro, o Inpe lançou um sistema de previsão de raios que pretende informar onde eles irão cair no dia seguinte. Osmar Pinto conta que o sistema deve entrar em operação em janeiro de 2016 e a ideia é firmar parceria com as emissoras de televisão para que, assim como a previsão do tempo, seja divulgado o serviço de previsão de raios.

O coordenador do Elat alerta ainda que, apesar da tendência de aumento de raios no Norte, de forma pontual neste verão, por causa do fenômeno El Niño, a Região Sul será muito atingida. “No inverno, já tivemos 500% mais raios se comparado a 2014. No Sudeste o aumento foi 100%”, diz Osmar.


PERFIL


O levantamento também aponta para uma mudança no perfil das vítimas de raios. Até 2009, 40% das vítimas tinham até 24 anos. Já nos últimos quinze anos, o número de vítimas dessa faixa etária passou para 68%. O estudo também chama a atenção para um outro dado. Apesar da residência ainda ser o local mais seguro para se abrigar durante os fortes temporais, as mortes dentro de casa saltaram de 12% no primeiro levantamento para 19% nos últimos quinze anos. Ambas as constatações podem ser ilustradas pelo episódio ocorrido em Ananindeua, que vitimou o jovem cantor, de 23 anos, dentro da igreja.

“Os números preocupam e mostram que precisamos evoluir em sistemas de proteção dentro de casa, pois ainda há riscos. É necessário que as pessoas evitem ficar próximo de objetos ligados à rede elétrica ou rede telefônica durante as tempestades”, disse o coordenador do Elat.

Ele ainda orienta as pessoas a evitarem banhos no chuveiro elétrico, falar ao telefone com fio e ficar próximo a eletrodomésticos e grande objetos metálicos, durante tempestades. Falar ao celular não é perigoso, desde que ele não esteja conectado ao carregador.

Além das citadas, as principais circunstâncias de mortes por raios são no transporte, embaixo de árvores, em campo de futebol e na praia. O pesquisador ainda ressalta que as orientações sobre como se proteger de raios chegam mais fácil à população adulta do que aos jovens e crianças.

“Ou o jovem não recebe ou negligencia a informação, o que sugere que devemos fazer ações voltadas para esse público. Uma sugestão é que os livros didáticos tragam informações para que as crianças percebam o perigo dos raios e ao longo das próximas gerações tenhamos crianças mais protegidas”, afirma.

O Liberal

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